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Deborah Paiva / um dia comum
08.03.2017 | 01.04.2017


Nos filmes “Troiscouleurs: Bleu”, “Troiscouleurs: Blanc” e “Troiscouleurs: Rouge”, que compõe a “Trilogia das Cores” do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, as cenas são banhadas pelas cores presentes nos títulos dos filmes. É com elas que o cineasta cria uma atmosfera, acentua o tom das narrativas e dos personagens.
Em 2012, quando visitei pela primeira vez o ateliê da artista Deborah Paiva, lembro de ter dito que suas pinturas me lembraram a trilogia de Kieslowski. Que a imersão nesse universo de cor, a composição dos trabalhos, e a presença da figura humana, me remetia ao cinema, e não à fotografia. Não que a imagem fotográfica seja uma questão para a artista. Deborah parte de imagens que coleta e arquiva, mas as desconstrói, reconstruindo-as dentro do universo que a interessa. O resultado final não lembra em nada as imagens de origem, e ao meu ver, suas pinturas também instalam uma atmosfera nas imagens, um pulsar, uma luz, uma narrativa vazia, e ao mesmo tempo repleta de sentidos, que liga o trabalho ao cinema. Na exposição “Um Dia Comum”, Deborah traz de modo atento um mundo visto de maneira dispersa. Suas pinturas retratam ações corriqueiras, banais, daquelas que fazemos sem prestar atenção, e muitas vezes, sem nos darmos conta de que estamos fazendo. Retratadas pela artista, essas ações vazias nos levam à um outro estado, um lugar “entre”, entre o espaço externo e o interno, entre o exterior e o interior dos pensamentos dos personagens presentes em suas cenas. As imagens não trazem representação fiel, e não buscam isso, toda a construção cuidadosamente engendrada por Deborah busca criar essa atmosfera pulsante, e não uma imagem fixa. Esse lugar “entre” é traduzido através de manchas de cores, por vezes mais duras e precisas, mas também moles e macias. São cores banhadas em cinza, e nelas mesmas. Azul sobre azul, rosa sobre rosa, inundam a imagem como um filtro, que se coloca entre o espectador e a pintura. Em uma entrevista presente nos box de DVDs da Trilogia das Cores, Kieslowski fala de “Troiscouleurs: Bleu” de 1993, primeiro filme da série. Ele se dedica a explicar a cena onde Juliette Binoche está num café, e um longo close mostra a personagem mergulhando um torrão de açúcar no café: “Quis mostrar o universo da personagem, o quanto nada que a cerca a interessa”. É essa mesma sensação melancólica que Deborah Paiva cria em suas pinturas, o mundo exterior não importa, ele está banhado e distorcido pela introspecção das figuras que o habitam.

 Douglas de Freitas | fevereiro de 2017


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