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Dentro do Espelho
21.10.2017 | 18.11.2017

À medida que ganha intimidade com seu jardim, Patricia se torna cada vez mais sensível à plasticidade da luz, ou seja, aos efeitos que os contrastes de claro/escuro, as dominâncias cromáticas, os reflexos e as sombras, produzem na paisagem. Gradualmente, sua pintura deixa de ser naturalista e começa a provocar certo estranhamento. 

Seus quadros não são cópias da natureza e sim imagens midiatizadas. Partindo da  fotografia e explorando as possibilidades da manipulação digital, Furlong constrói uma obra em que tradição e invenção, observação e imaginação se conjugam. Desse processo resultam backlights, aquarelas e telas de grandes formatos que primam pela ousadia cromática e pelas distorções formais características do espaço topológico.

Na produção mais recente, busca inspiração nos grafismos projetados pelas sombras da ramagem nos muros, no chão e sobre a água acumulada pela chuva. Vale notar que há certa analogia formal entre as escritas alteradas que criou na década de 1990 e essas caligrafias virtuais geradas na natureza. 

Em muitas obras dessa fase, o horizonte aparece próximo ao limite superior da    composição, dando a sensação de que a paisagem se alonga para o alto em razão de nossa pequenez. Por fim, em contraste com a pintura solar que vinha praticando, investe num conjunto de pinturas em “grisaille” (do francês “grise”, cinza) cuja paleta esmaecida remete às cenas invernais da pintura europeia. Como Alice no conto de Lewis Caroll, Patricia atravessa o espelho da realidade e adentra um mundo onde as relações que nos parecem estáveis são subvertidas.

Maria Alice Milliet


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