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Still Life
16.09.2017 | 14.10.2017

Vivemos imersos numa cultura do excesso. Do cuidado hiperbólico com o corpo ao consumo de bens culturais, do turismo como moeda de status ao acúmulo de patrimônio material, do excesso de informação a ser digerida ao estímulo pelo hiper narcisismo.  Há que se levar em conta, porém, que para uma tal engrenagem ser mantida, é necessária uma reposição ininterrupta de novos objetos de desejo, novos modismos, novos medidores de status, pois qualquer forma de permanência significará a falência de tal sistema.

De fato, nunca como hoje a necessidade da substituição foi tão premente. Os objetos, a arquitetura, as relações, estão continuamente flertando com essa urgência pelo descarte, num movimento aparentemente infindável de construção e destruição. Vemos exemplos concretos disso em nossas cidades, sem memória, em nossa arquitetura desfigurada pelo uso de estruturas padronizadas, efêmeras, que riscam da paisagem urbana a história, ao optarem pela reposição constante de seus elementos.

Nós nos constituímos como sujeitos através do enfrentamento com aquilo que nos é dado, nos diferentes encontros vividos com o outro e com os acontecimentos. Mas na contemporaneidade,  todos esses processos de subjetivação passam  a ser altamente alienantes,  pois não se consegue nem processar  o excesso e a velocidade da  informação e da inovação,  nem criar uma margem externa ao sistema, de onde se possa criticá-lo, pois tudo é rapidamente tragado por ele.  E talvez seja justamente essa a grande crise de sentido enfrentada pelo homem contemporâneo.

O movimento contrário a essas forças, aquele do silêncio, da estadia ou da contemplação, é visto, no mais das vezes, como desajuste aos tempos  contemporâneos, algo  como uma inaptidão existencial.

No meu trabalho de pintura, venho lidando com o conceito da ruína como destruição ou apagamento da memória, sendo a própria pintura constituída por um movimento contínuo de construção e destruição. Penso nela como uma re-escritura, onde a imagem restante, imagem construída, traduz essa colagem de tempos e de memórias. 

Uma vez que não seja mais possível dar-se conta da totalidade, aparece a edição, o apagamento, a mixagem, o fragmento, num exercício de estruturação e ordenamento do mundo através do trabalho, ele próprio fundado por esse processo de ruína e  recuperação.

Como parte desse processo, trago também uma série de pequenos desenhos em caixas de acrílico, surgidos da experiência vivida junto à comunidade da Pedreira. Ali são atendidas crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, para que descubram alternativas transformadoras em suas vidas. E já que moradias dignas são o começo de qualquer começo,  mais de 500 casas foram construídas nesse projeto, ao longo de 3 décadas.

Para essa série de trabalhos, pedi pedaços de madeiras, tecidos ou papelão que anteriormente foram paredes ou partes das antigas casas, agora reconstruídas. Sobre esses suportes, fiz pequenos desenhos e monotipias, com o desejo de costurar assim, mundos tão diversos, que bem podem se encontrar.


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