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O Que Sobra
26.09.2013 | 23.10.2013

Son of man, 
You cannot say, or guess, for you know only 
A heap of broken images, where the sun beats,
T. S. Eliot

Rosangela Dorazio tem uma extensa experiência com a gravura. Domina a arte de subtrair matéria para criar a matriz, depurar a imagem, produzir o seu duplo. Entretanto, ao contrário de muitos artistas que se enveredaram por esse campo tradicional, não tem um apego purista à técnica, não guarda nenhum romantismo com relação ao fazer artesanal e esmerado com que frequentemente se associam os guardiães dos procedimentos intrincados das diversas maneiras de gravar.

Faz isso não por desconhecimento ou desprezo, mas porque sua pesquisa a leva a colocar no centro da sua produção o lugar difícil do fazer artístico e da imagem no tempo em que vivemos. Sabe que reivindicar para a arte o estatuto de um fazer exemplar, modelo para as outras ações humanas, nos dias de hoje, é tão problemático quanto acreditar na capacidade de comunicação direta da imagem. São tempos turvos, em que a ação humana não mais capaz de gerar exemplaridade e o meio já deixou há tempos de ser a mensagem.

Dorazio enfrenta a linguagem de um ponto de vista contemporâneo. Tem plena consciência de que as imagens são híbridas, feixes de sentido muitas vezes contraditórios e conflitantes. Ora vestigiais, ora ainda poluídas de referências coletivas e individuais, são resíduos de outras imagens, pré-imagens e pós-imagens num mundo que não se deixa fixar com clareza, que resiste, com profunda melancolia, à formalização, incapaz de escapar do processo de objetualização que o transforma em fetiche.

Os trabalhos que a artista reúne nessa exposição partem da fotografia, luz gravada sobre uma superfície. Mais uma vez não é a técnica fotográfica que interessa a Dorazio. A fotografia comparece não em suas ricas gradações de luz e sombra, na qualidade do foco ou da composição, mas sim por certas propriedades generalizantes da imagem produzida por meio dessa linguagem. No senso comum, fotografias podem ser vistas como registro, em que o médium passa quase despercebido. Por isso mesmo, a artista parte de fotos de paisagem banais, quase genéricas, que guardam - nas cenas capturadas, nas angulações da lente, no enquadramento, na luminosidade – algo do caráter inócuo das imagens dos postais ou folhinhas de calendário. São imagens feitas para desviar o olhar para lugares imaginários, imagens da expectativa, da fuga, do sonho. Nelas, não se olha realmente o visto. Ele é dado que remete ao não visto, ao almejado, ao ausente.

As intervenções feitas pela artista sobre as impressões fotográficas explicitam o impasse entre a percepção e a imaginação, entre a experiência concreta e a projeção idealizada. Retiram das paisagens aquilo que poderia caracterizá-las, indicando precisamente os vazios desses lugares do desejo irrealizado.

Intervindo sobre o suporte fotográfico, Dorazio não procura restituir o contato com a imagens particulares, mas reter o que nelas há de geral, não de genérico. Aquilo que não muda, que permanece, que é constante. O chão, o céu, a linha do horizonte. Apagando por meio da intervenção, destruindo a vista aparentemente inócua da qual parte, a artista desbasta a imagem pré-formada em busca de uma espécie de grau-zero da percepção.

Seu gesto pode ser suave. Por vezes, imprime com os instrumentos de gravação sulcos pacientes, criando arabescos abstratos que transbordam os limites da superfície onde antes havia formas figuradas. Mas também pode ser enérgico, quase violento, rasurando o papel, riscando e rasgando aquele suporte, agredindo as formas fixadas, num gesto quase iconoclasta.

Restituir o direito de ver o vazio, de nos deparar com o limite da ausência de forma e de sentido, esse parece ser o objetivo das estranhas e perturbadoras gravuras de Rosangela Dorazio. Elas nos obrigam a encarar a waste land em que nos encontramos, todos.

Fernanda Pitta
setembro / 2013


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