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O Ateliê como Pintura
14.08.2013 | 14.09.2013

O ateliê como pintura

O que faz um pintor? Pinta. Esta é a resposta mais direta, clara e certeira. Um pintor pinta. Ou, aproximando a assertiva do campo das artes visuais, um pintor é aquele que exerce a arte da pintura. Frantz, define-se como “um pintor que não pinta”. Observando sua produção atual, o que vemos? De um modo geral, marcas, nódoas, viscosidades, pegadas, saliências, pingos, escorridos e cores, muitas cores: sutis, soturnas, intensas e luminosas. No amálgama desses elementos, uma curiosa harmonia equilibra pesos e provoca o enfrentamento das manchas. Vazias de qualquer conotação temática ou figurativa, as pinturas têm como ponto de partida impressões que o olhar do artista recolhe da experiência sensível e que nos devolve como poética. Isso não impede que, em meio à abstração que domina as superfícies pictóricas, não se possa identificar formas que remetam a ondas, nuvens, céus, constelações, oníricas paisagens, numa operação que aciona capacidades perceptivas e imaginativas do espectador. São muitas as portas de entrada ao “universo Frantz”, e não há dúvida de que a riqueza formal de suas pinturas por si só fascina. Talvez fosse concebível, inclusive, discutir sua produção tomando como ponto nodal a exuberância plástica que a caracteriza, bem como o diálogo com a própria história da arte. Tal abordagem, no entanto, excluiria o que mais interessa ao artista e o que torna suas obras especialmente singulares: o processo.

Nesse ponto, retomamos o paradoxo inicial: Frantz é um pintor que não pinta. Desde meados dos anos 1990, estendendo metros de tela de algodão nas paredes e no chão do ateliê no qual ministra aulas, faz do tempo um aliado. O mesmo tempo necessário para observar e amadurecer percepções é o tempo exigido pelas superfícies para receber as impressões de tantos gestos, para sedimentar os resíduos, para consolidar as vivências. Algumas telas permanecem meses fixadas à estrutura da sala, mas há as que ficam anos. Em algum momento, o artista decide que estão prontas. E começa a fazer as “suas pinturas”. Com segurança, arranca-as das paredes, corta-as e as organiza, dando início à meticulosa edição, apontando as partes que serão esticadas sobre chassis e as que darão corpo aos livros. Mais do que registro ocasional dos processos e possíveis acidentes inerentes à prática artística, nesses fragmentos, nas extensões maceradas das telas, reside a própria memória da pintura. Microcosmo em expansão, o ateliê, em sua ordem aberta e instável, como depositário de sensações, vivências, encontros e embates, termina sendo o quadro mais bem acabado.

Os vestígios recolhidos são múltiplos, coletivos e com várias temporalidades. Nos últimos anos, buscando problematizar ainda mais a questão da autoria, Frantz tem forrado ateliês individuais de artistas de São Paulo, Florianópolis, Recife e Porto Alegre. Mesmo assim, como associar, em um primeiro momento, a obra final aos registros de seu processo, aos mesmos registros editados pelo olhar de Frantz? Trata-se de uma associação quase sempre obscura, e em poucos exemplares é possível sugeri-la. Portanto, não é o artista por trás do trabalho que motiva Frantz. O que lhe interessa, tenazmente, é o exercício de perceber pintura, de pensar pintura. Frantz, pintor que não pinta, faz da pintura seu leitmotiv. Esse entendimento nos lança, uma vez mais, às questões centrais da poética do artista: de um lado, a compreensão de que, além de laboratório, além de espaço privilegiado de criação, o ateliê é matéria, é a própria obra; no caso específico, o ateliê é pintura. De outro, a consciência de que, assim como construímos o olhar para essa portentosa e admirável pintura, somos por ela construídos. E ela, seguramente, não deixará que percebamos as múltiplas camadas do cotidiano como antes. O corte foi feito.

Paula Ramos
curadora


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