eng / port

Em Tramas
24.02.2015 | 21.03.2015

       O título LIDIA LISBOA: EM TRAMAS é aqui compreendido em três instâncias: num sentido mais literal, o título se refere ao entrelaçado característico tanto em sua obra em tecido como em sua obra em cerâmica, que ecoa um padrão formal similar através dos pequenos elos desenhados na superfície das peças feitos com a ponta dos dedos da artista. Mais figurativamente, as tramas referem-se também às séries de performances da artista registradas em fotografia por Henrique Saad – aos enredos atuados, vividos nessas performances. E num sentido ainda mais profundo, as tramas traduzem o conjunto total da obra de Lidia Lisboa, o emaranhado formado pelo conjunto dessas diferentes mídias.

     Da produção escultórica a mostra apresenta os Cordões (2013-2015), formas lineares de até 10 metros de comprimento, bem como osCupinzeiros (2011-2015), esculturas em barro queimado de tamanhos variados. Essas últimas foram vencedoras do "II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras" de 2011. Uma referência a episódios da biografia da artista, os cupinzeiros remetem ao objeto homônimo encontrado nas regiões rurais do cerrado brasileiro, como é o caso de certas áreas de Guaíra (PR), cidade onde a artista passou sua infância e adolescência.

     Entre sua profícua produção em tecido estão os Casulos (2010-2015), obras ovaladas, de dimensões variadas, feitas com técnicas de crochê. O casulo gigante (Sem título, 2011) que integra a exposição serve como elemento da performance Pulsar (2013), que será atuada pela artista na abertura da exposição. Em direto diálogo com ossoundsuits do artista americano Nick Cave e com elementos da mitologia iorubana, essa “vestimenta” remete, em Lisboa, à experiência de recolhimento, transformação e renascimento. 

     Um conjunto de formas arredondadas conectadas entre si, as Cicatrizes (2010-2015) são, na descrição da artista, recipientes “para guardar nossas dores.” Essa série tangencia a obra de Lygia Clark justamente no ponto em que esta dissolve as fronteiras entre arte e vida, propondo experiências sensoriais através de seus objetos relacionais. Apesar da semelhança formal com um dos muitos objetos relacionais criados por Clark, e do sentido aparentemente catártico conferido por Lisboa a seus objetos (“guardar nossas dores”), em Lisboa a obra resulta não do “abandono da arte”[1], mas de um fazer predominantemente intuitivo, performático e compulsivo.

     Do performar, elemento central na prática da artista, derivam suas diferentes linguagens: costurar, crochetear, amarrar, atuar. Assim, entrelaçando refêrencias do universo feminino com tradições Afro-Brasileiras, costurando partes de sua ancestralidadade com pedaços de sua biografia, Lidia Lisboa nos apresenta o resultado intricado de suas tecituras.  

FABIANA LOPES    


SOBRE A CURADORA
 Fabiana Lopes é curadora independente que vive entre Nova Iorque e São Paulo. Seus textos foram publicados na Colors magazine, Flash Art,  e no catálogo da exposição  New Territories: Laboratories for Design, Craft and Art in Latin America (2014), Museum of Art and DesignNew York. Com mais de vinte anos de experiência profissional, ela recentemente ocupou as posições de Assistente de Curadoria na Colección Patricia Phelps de Cisneros e no útimo ano contribuiu com exposições e projetos curatoriais no Museum of Modern Art, New York, Hauser & Wirth, New York, Sotheby’s Institute of Art, New York e Galeria Rabieh, São Paulo. 

Sobre o Artista

SOBRE A ARTISTA Lidia Lisboa é artista visual e de performance, natural de Guaíra, Paraná  Lidia tem formação em gravura em Metal pelo Museu Lasar Segall, escultura contemporânea e cerâmica pelo Museu Brasileiro de Escultura  (MuBE) e Liceu de Artes e Ofício. A artista participou de exposições nas galerias Fibra, Central das Artes, no Liceu de Artes e Oficios de São Paulo e no Instituto Goethe São Paulo. Seu trabalho foi premiado com o Prêmio Maimeri 75 anos (1997) e II Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras (2011). Lidia Lisboa vive e trabalha em São Paulo.   


Voltar