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ERRANTES
05.05.2016 | 25.05.2016

Curador Eder Chiodetto
Errar por territórios desconhecidos, desertos, metrópoles, vilarejos ermos, na ânsia de encontrar um lugar para chamar de seu ou simplesmente pela convicção de que Navegar é preciso, viver não é preciso", como nos lembra o poeta Fernando Pessoa. A deriva como uma opção ou condição de vida. O artista visual Titouan Lamazou, cidadão do mundo e peregrino por natureza, passou os anos recentes em contato com populações nômades e refugiados em diversos países africanos, no Afeganistão, na Sibéria, Cisjordânia dentre outros. Dessa sua experiência-errância, surgiu uma nova série de trabalhos ampliados em grande formato, agora reunidos na mostra "Errantes". As imagens, que chegam a até três metros de largura, fazem com que o registro sofra uma profunda mutação por conta da escala: não se trata mais de imagens que se limitam a "reportar" um tempo- espaço específico, mas sim, de cenas pelas quais somos envolvidos até o ponto de nos sentirmos parte delas. Entramos em relação com o lugar e as pessoas por um curioso processo de interação, que difere muito da experiência de olhar imagens em pequena escala. Tal efeito é reforçado também pela incrível qualidade pictórica das imagens de Titouan. Realizadas com câmeras de altíssima resolução, as imagens mesmo ampliadas em escalas descomunais, resultam numa qualidade pictórica impressionante. O grão da areia, nas imagens de desertos, por exemplo, ganham uma materialidade incomum. Esse conjunto de obras reunidas em torno da mostra "Errantes", tem um viés antropológico que tende a desvendar sutilezas culturais e uma espécie de beleza que se extrai da harmonia das coisas mais simples. O que é essencial para se viver? Os povos nômades, percebemos nas imagens, tendem a viver com o mínimo que se pode carregar pelas estradas vida afora, mas nem por isso deixam de lado a beleza, a composição luxuosa de estampas e cores em suas casas-tendas, por exemplo. Em outros momentos somos levados a cenários e paisagens atemporais, que remetem à cenas bíblicas. Essa nova mostra de Titouan Lamazou tem o poder de nos desacomodar de conceitos tolos que conectam beleza com aparência ou felicidade com riqueza. A vida pode ser uma aventura desenraizada. E viver pode ser uma experiência sem limites geográficos ou dogmáticos. 

Sobre o Artista

Titouan Lamazou, cidadão do mundo é, antes de tudo, um artista fiel aos seus princípios. A relevância de seu trabalho como artista engajado na defesa dos direitos da mulher foi reconhecido em 2002, quando a UNESCO decidiu apoiá-lo em seu mapeamento da condição feminina no mundo. Em 2003, recebeu da UNESCO o título de ‘Artista pela Paz’, reconhecendo no artista um porta-voz para uma de suas grandes missões. Nascido em Casablanca, no Marrocos, em 1955 tem em seu DNA a peregrinação pelo mundo em busca de explicações que são explicitadas através de sua arte imagética de forma sensível e contundente. Em 2001, Lamazou decidiu dedicar sua vida ao projeto 'Mulheres do Planeta'. Com mais de 200 perfis, a mostra faz um amplo painel da mulher contemporânea por meio da fotografia, pintura, vídeo, texto e desenho realizados pelo artista durante sete anos de viagens pelos cinco continentes do mundo. Este trabalho culminou com a exposição em 2007 intitulada “Zoé Zoé, Femmes du Monde” realizada em Paris no Musée de l’Homme com mais de 230 mil visitações. Esta mesma exposição viajou para o Brasil em 2009 de forma ampliada em uma gigantesca e empolgante exposição ocupando os quatro andares da Oca no parque do Ibirapuera, espaço este nunca antes ocupado por um único artista em sua área total. Mas como explicar o que existe de tão especial nas fotografias de Lamazou? Como definir ou exemplificar sua arte? Para tal, nada melhor que um trecho do prefácio de um dos mais de 25 livros de sua bibliografia, Femmes – Photography, escrito por Benoît Decron, curador e diretor de patrimônio do Musée Soulages à Rodez. 


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