eng / port

O JARDIM PERFEITO DE PATRICIA FURLONG

 

Posto diante da confusão das coisas, o jardim organiza em seu microcosmo, para nós, a extensão do mundo[1]. O elaborado jardim de Patrícia Furlong nos é apresentado frontalmente. Estruturado. Desenhado. Um jardim qualificado pela exuberância de matizes de verde, distribuídos nas dobras da complexa paleta de tons e semi-tons, verdadeira sinfonia de luz. Fechado, detalhado e especificado, o jardim evoca e invoca uma natureza em obra. Uma natureza que, domesticada e ordenada em relações, permanece bastante “visível” sob a forma de um quadro. Com seus limites (a moldura), seus elementos necessários (formas de objetos coloridos) e sua sintaxe (simetrias e associações de elementos)[2]. Trata-se aqui de um jardim perfeito, que vive desde sempre em nossa memória na forma dada de uma lembrança pura. Entretanto, quando estamos na frente destas imagens – pinturas? fotografias? – nos vemos tentados a perguntar: afinal o que de fato a artista nos traz? A perfeição de um jardim?

Mais do que pinturas, sempre entendi que esta produção estava menos ligada às questões de ordem pictórica e mais com o fato de serem imagens geradas em condições muito específicas, entre elas, o de serem feitas in loco e retratarem paisagens naturais – palavras da artista. Mas poderemos creditar a particularidade destas pinturas/imagens – sua vontade de reinventar significados – ao fato de serem elas retratos de paisagens naturais, feitos “in loco? Perguntamos: existe a naturalidade da paisagem? O que significa este “in loco”? A condição “in loco” nos dá alguma garantia?

Se tomamos o clássico e amplamente citado texto de Walter Benjamim que trata da pintura, da fotografia e da idéia de aura da obra de arte, vemos que o autor associa a noção de autêntico ao testemunho histórico da obra (no caso, a pintura) perante a cena representada[3]. Na reprodução técnica (a fotografia), tal testemunho histórico vacilaria, e com ele, a autoridade da obra. O autor afirma com isto que a aura, na arte, está vinculada ao “in loco” que marca sua realização, o seu aqui e agora. Para nós, nos dias de hoje, a situação é outra. Mediados por inúmeros dispositivos, sabemos o quanto uma relação inaugural entre nós e a “paisagem” não é possível. Ou seja, sabemos que a relação presencial perante uma cena não traz a garantia de uma verdade, não configura um testemunho histórico inquestionável.

Já é conhecimento investigado e estabelecido o quanto a pintura, no passado, teria articulado a impressão (o sensível) e o conhecimento (a razão cognoscente) numa fórmula – o artifício da perspectiva – e garantido, para nós, a unidade do sujeito. Toda a natureza (o exterior) está lá, em uma apresentação que reduz sua dimensão ao que pode ser captado no feixe visual; mas essa redução só pode se dar à medida que a totalidade for mantida, a unidade constituída – uma unidade mental...[4]. A idéia de natureza, concluiu-se, só aparece vestida por meio da linguagem, ela própria historicamente constituída. A naturalidade da paisagem é um constructo, e a condição “in loco” não garante mais o transporte da imagem para o original, uma valendo pelo outro, pois a noção de original tornou-se estranha para nós.

O jardim perfeito de Patrícia Furlong não é, portanto, mais uma tentativa de representação. Não se trata de representar; as paisagens virtuais são concepções[5]. Imagens de segunda natureza, estes trabalhos paisagens dentro de paisagens são inserções, imagens dentro de imagens. Pensamos que vemos e não vemos um jardim, pois já não se trata de afirmar o valor do jardim, ou a equivalência entre um artifício e a natureza. Aqui, precisamente, reside sua contribuição às tentativas contemporâneas de reinventar de significados. O que vemos é o próprio dispositivo: imagem se fazendo imagem.

 

Regina Johas, 13/07/2010

 



[1] Não devemos esquecer que, no Oriente, o jardim, uma surpreendente criação milenar, possui significados profundos e aparentemente sobrepostos. O jardim tradicional dos persas era um espaço sagrado que devia reunir dentro de seu retângulo as quatro partes que representam as quatro partes do mundo, com um espaço ainda mais sagrado do que os outros em seu centro, como um umbigo, representando o centro do mundo (onde se encontra a fonte); e toda a vegetação do jardim deveria supostamente estar reunida neste espaço, nesta espécie de microcosmo. Quanto aos tapetes, estes foram originalmente reproduções de jardins (o jardim é um tapete no qual o mundo é chamado a representar sua perfeição simbólica, e o tapete é uma espécie de jardim que pode se mover através do espaço). O jardim é a menor parcela do mundo e é a totalidade do mundo”. FOUCAULT, Of Other Spaces, http://foucault.info/documents/heteroTopia/foucault.heteroTopia.en.html, 13/07/2010, 14:30.

[2] CAUQUELIN, Anne. A invenção da Paisagem. São Paulo: Martins, 2007, p. 26.

[3]A autenticidade de uma coisa é a suma de tudo o que desde a origem nela é transmissível, desde a sua duração material ao seu testemunho histórico. Uma vez que este testemunho assenta naquela duração, na reprodução ele acaba por vacilar, quando a primeira, a autenticidade, escapa ao homem e o mesmo sucede ao segundo, ao testemunho histórico da coisa. Apenas este, é certo; mas o que assim vacila é exatamente a autoridade da coisa”. BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”, in: Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio D’Água: 1992, 72-135.

[4] Cf. Cauquelin, op. cit.

[5] Cf. Cauquelin, op. cit.


Voltar