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O Mundo Alucinante de Andrea Rocco

“De um lado a imaginação e o sonho, de outro o desejo de registro objetivo dos fatos da natureza, as pretensões de controle e certeza tão próprios a ciência. Entre um e outro domínio Andrea Rocco vai estabelecendo o seu território; um lugar onde os termos são embaralhados como um caleidoscópio que se vai virando e que de quando em quando sacudimos com a expectativa de uma nova surpresa. Em seus trabalhos/colagens os seres da natureza – insetos, aves, peixes e mamíferos, reduzidos a imagens fotográficas, comparecem em poses tão artificiais quanto os arranjos montados em vitrines dos museus de história natural. Enquanto isso as complexas imagens aquareladas produzidas pela artista, cenas singelas de crianças em recreio por jardins e paisagens intrincadas, ao contrário dos bichos retratados em preto e branco, assemelham-se muito mais com coisas da natureza: aconteceu sob as vagas de soluções cromáticas delicadas, o resultado de tintas coloridas deixadas por pinceladas encharcadas, caprichosas e ágeis, sobrepostas a desenhos sutis realizados por lápis apontados; pelas pinceladas adivinha-se a pluralidade de gestos da artista favorecendo que o pigmento dissolva-se ao sabor da água que lhe contem ou estende seu passo, ao mesmo tempo em que ele se vai aninhando nos poros do papel que lhe serve de chão.

As colagens de Andrea Rocco, e creio que seja pertinente referir-se a elas desse modo, são, por assim dizer, proliferantes. Um efeito do acúmulo de coisas, todas elas a disputar nossa atenção. E note que não se trata apenas das figuras mas o modo como se apresentam. Gentes e bichos, árvores, casas, botes, lagos e gramados, empilham-se em situações de verossimilhança variável. Ora estão situados em paisagens plausíveis, ora não, equilibram-se em espaços esgarçados, como se estivessem suspensos no ar. Além disso, esses personagens justapõem-se entre si e entre as cores, linhas e manchas que atravessam todos os setores da área quadrilátera do papel, elementos que por si só agarram consigo nossos olhos, obrigando-os a evoluir por todos os cantos, parando aqui e ali mas sempre prosseguindo em rotas caóticas só na aparência, porque o verdadeiro artista sempre obtém que os nossos olhos percorram as trilhas que ele cuidadosamente construiu. Assim, se essa pervagação ocorre é porque junto com as figuras toa prosaicas e familiares há linhas, manchas e pontos; movimentos contrários, ondulantes, longelíneos e curtos; superfícies lisas, esmaecidas e balbuciantes; vetores de força mais incisivos e outros titubeantes; há situações e acontecimentos variados como aqueles preconizados por Paul Klee, o mais prolifero semeador de uma superfície, fosse ela de papel ou de tecido. E há, além disso tudo, as cores, expansivas ou não mas sempre contrastantes, sempre a solicitar nossa atenção, convidando-nos a saboreá-las.

A julgar pelos trabalhos apresentados nessa exposição, a poética de Andrea Rocco alimenta-se de uma contradição: a tentativa, inútil e por isso mesmo

tratada em chave irônica, de recuperar uma infância da expressão a partir da elaboração de imagens singelas, próximas as ilustrações de livros infantis antigos- porque é nítido que essas crianças não pertencem ao nosso tempo-, nomeadamente aqueles que nos asseguravam a possibilidade de uma relação idílica com a natureza. Mas qual natureza?

Era comum entre os primeiros viajantes que por aqui aportaram trazerem em suas comitivas, entre os variados profissionais, junto com o botânico e zoólogos, artistas capazes de representar a miríade de espécies coletados ou simplesmente observados. Mesmo em tempos recentes, o emérito professor Paulo Vanzolini por tanto tempo diretor do Instituto Biológico, não dispensava em suas frequentes expedições, ao lado de um fotógrafo competente, um artista plástico igualmente diferenciado. Uma decisão pautada nos recursos singulares de um bom artista, cuja sensibilidade é capaz de capturar aquilo que o olho mecânico não alcança. Mas a lembrança desses artistas pioneiros deve-se ao seu previsível e tantas vezes manifestado espanto, extensível aos seus colegas das ciências naturais, diante da opulência da natureza tropical, de um universo inacreditavelmente variado. O escritor cubano Alejo Carpentier defendia o realismo mágico como um tipo de escritura própria da América Latina e que começou a ser praticada por aqueles que, embora não fossem latino-americanos, escreviam estupefatos diante da riqueza do novo continente. E não foi mesmo em tom superlativo que Pero Vaz de Caminha dirigiu-se ao rei de Portugal – “Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por causa das águas que tem.”

Se me refiro a esses artistas viajantes é porque também percebo uma proximidade entre essas aquarelas/colagens de Andrea Rocco e a tentativa algo naturalista de representação do mundo vegetal e animal, ainda que profundamente perturbado. De fato, há algo que não se fecha nessas imagens, pois enquanto essas crianças, águas, paisagens e vegetais apresentam uma potência, exalam uma vitalidade que as faz transbordar, seres palpitantes não obstante sua distância no tempo, a maioria dos insetos, peixes e aves, por sua vez, vêm, no geral, catalogados e padronizados como imagens de álbuns de figurinhas, ou seja, não desprendem nada que transpareça vida, são, por assim dizer, imagens empalhadas. E por isso mesmo são assustadores e agressivos. A proliferação desses bichos lembra um arranjo premeditado, como se o mundo natural tivesse sucumbido de uma vez por todas a lógica do homem. E a insólita fusão do topo da cabeça de um cachorro com a cabeça de uma ave, assim como a geometria libélulas e a agressividade dos escaravelhos, combinam-se com a rosácea de revolveres, o que serve como advertência para o fato de que o mundo em que vivemos produz monstruosidades e violências de toda sorte, e que mesmo o passado que antes nos servia de refúgio, agora, paulatinamente transformado pelo presente, revela-se assustador.

 

Agnaldo Farias


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